Texto de história de Rondônia

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Pelo Tratado de Tordesilhas (1494) a bacia Amazônia pertencia à Coroa Espanhola, porém o período União Ibérica, 1580-1640, permitiu aos Luso-brasileiros o avanço pelo interior da Amazônia.

O primeiro passo dado pelos portugueses para a conquista dos territórios da Amazônia foi a fundação do Forte do Presépio, núcleo urbano que deu origem a cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, em 1616.

Em 1637, partiu de Belém a expedição de Pedro Teixeira que ao subir o rio Amazonas fez as primeiras demarcações portuguesas da bacia Amazônica e chegou até o Peru, conseguindo criar um caminho alternativo para alcançar essa região espanhola rica em minérios.

Pela Carta Régia de 1693, a Amazônia portuguesa foi dividida em áreas de atuação catequética das diversas ordens e congregações religiosas católicas. Coube aos jesuítas a catequese do distrito sul do rio Amazonas, incluindo os vales do Madeira, Mamoré e Guaporé, até os limites com a vizinha colônia espanhola do vice-Reinado do Peru, que abrangia terras do Peru, Equador e Bolívia.

Os jesuítas fundaram, em 1669, a missão de Tupinambarana, na foz do rio Madeira, origem da cidade de Parintins (cidade do estado do Amazonas).

Em 1683, o padre Jódoco Peres navegou o rio Madeira com o objetivo de inspecionar os aldeamentos indígenas. No entanto, por causa das dificuldades para a evangelização, os jesuítas permaneceram arraigados em sua foz por muito tempo.

Temendo a invasão holandesa, em 1687, o governador da capitania do Grão-Pará, Gomes Ferreira, solicitou aos jesuítas a fundação de missões no percurso do rio Madeira. Por volta de 1714, os missionários do rio Madeira já se encontravam nos limites territoriais de Rondônia.

Em 1647, o bandeirante paulista Antônio Raposo Tavares partiu de São Paulo em direção ao oeste, chegando ao vale do Madeira três anos mais tarde (1650), percorreu os rios Guaporé, Mamoré, Madeira e Amazonas em busca de índios e riquezas minerais. Sua bandeira, conhecida como Grande Bandeira de Limites, é um marco da presença portuguesa na região.

A fixação de núcleos de povoamento coloniais, na bacia Amazônica, iniciou-se com o estabelecimento de missões religiosas, dos padres jesuítas, para a catequese e pacificação de nativos.

A Coroa Portuguesa apostando na possibilidade de encontrar ouro e prata, e objetivando ampliar seus limites solicitou ao governador da capitania do Grão-Pará e Maranhão, João Maia Gama, o reconhecimento minucioso do rio Madeira. Para tanto, organizou uma expedição em Belém em 1722, partindo em 1723. Esse levantamento foi comandado pelo sargento-mor Francisco de Mello Palheta, que deveria, também, pôr fim à possibilidade de invasões espanholas na região do alto Madeira. A expedição de Palheta chegou até as missões de São Miguel e Santa Cruz de Cajubaba, já em território pertencente à Espanha.

No início do século XVIII, a região boliviana entre os contrafortes Andinos e a margem esquerda dos rios Guaporé, Mamoré e ao longo dos afluentes, havia sociedades indígenas, que exibiam populações notáveis e complexas organizações sociais, algumas com milhares de habitantes. Portanto, quando a expedição comandada por Francisco de Melo Palheta, a serviço da Coroa Portuguesa, chegou aos rios Mamoré e Guaporé os povos Mojos e Chiquitos exerciam um indiscutível controle sobre a região.

 

 

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Os irmãos Fernando e Artur Paes Barros saíram de Cuiabá e percorreram os sertões à captura de índios da tribo Pareci. Penetraram uma região de mata alta e fechada e, na margem do rio Galera, descobriram ouro em 1732. Em seguida, aconteceram descobertas no rio Sararé, também afluentes da margem direita do rio Guaporé.

Os irmãos Fernando e Artur Paes Barros denominaram a região de “As Minas do Mato Grosso”. As descobertas de ouro no vale do Guaporé atraíram mineradores procedentes das minas de Cuiabá que migraram para região a partir de 1736, dando início à formação dos povoados de São Francisco Xavier e Santa Anna, primeiros povoados do vale do Guaporé.

Por meio de alvará datado de 27 de outubro de 1733, a Coroa Portuguesa proíbe a comunicação pelos rios Guaporé, Mamoré e Madeira. Posteriormente, as ordens régias da Coroa de 1737 também confirmavam essas proibições que não tinham outros propósitos senão o de evitar a saída de ouro por essa via.

Quando ocorreram as descobertas de ouro no alto vale do Guaporé a margem esquerda no médio curso do rio Guaporé já estava ocupada por diversas missões espanholas administradas por missionários espanhóis.

O padre Athanasio Theodoro, jesuíta espanhol, iniciou em janeiro de 1743 a instalação da missão de Santa Rosa na foz do rio São Miguel, a primeira na margem direita do rio Guaporé.

Para evitar o despovoamento e garantir a posse da terra do vale do Guaporé D. João V solicitou em 1746, através de Carta Régia, ao governador da capitania de São Paulo, Dom Luiz Mascarenhas, a fundação de uma vila no distrito de Mato Grosso para servir de ponto de apoio administrativo e militar aos pequenos mineradores existentes nos afluentes do rio Guaporé e ainda incentivar o povoamento regional. Essa região esteve sob o domínio dos capitães generais da capitania de São Paulo até 1748.

Em 9 de maio de 1748, a Coroa Portuguesa cria a capitania de Mato Grosso, desmembrada da capitania de São Paulo. A capital da capitania foi funda em 19 de março de 1752, a margem direita do rio Guaporé. A Carta Régia que funda a capitania deixava clara a preocupação de Portugal sobre as posses territoriais e os encaminhamentos diplomáticos junto à Espanha que culminaram com o tratado de Madrid.

Com a fundação da capitania de Mato Grosso e a instalação de sua capital as prioridades eram promover o povoamento e a navegação pelos rios Guaporé, Mamoré e Madeira. As instruções recebidas pelo governador Antônio Rolim de Moura Tavares solicitavam que fosse averiguada a possibilidade de comunicação com a capitania do Grão-Pará e Maranhão por via fluvial.

Preocupada com a fronteira no vale do Guaporé, a Coroa Portuguesa envia uma série de instruções ao governador da capitania de Mato Grosso, dentre as quais estava o desenvolvimento de uma política de incentivo e mercês com o objetivo de aumentar o fluxo migratório para a região. Mas, os migrantes que chegavam ao alto vale do Guaporé eram em sua maioria exploradores e mineradores e garimpeiros e não fixavam residência.

Antônio Rolim de Moura governou a capitania de Mato Grosso durante 14 anos. Marca sua administração a instalação da sede administrativa da capitania a capital Vila Bela da Santíssima Trindade, fundou aldeias, povoados e feitorias e o primeiro forte na região, o Forte de Conceição que mais tarde foi denominado de Forte de Bragança depois, substituído pelo Real Forte do Príncipe da Beira.

Antônio Rolim de Moura Tavares promoveu uma intensa campanha de povoamento no vale do Guaporé. Portanto, é considerado como sendo o primeiro governador da capitania de Mato Grosso. Porém, nos registros históricos da Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso consta que o primeiro governador foi Gomes Freire de Andrade.

Para abastecer a região dos rios Guaporé, Mamoré e Madeira com mercadorias, ferramentas e escravos o então ministro Sebastião José de Carvalho e Melo (futuro Marquês de Pombal) criou em 1755, a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, com o monopólio para o abaste-cimento desses vales. Essa companhia promove a instalação de entrepostos mercantis de apoio próximos às cachoeiras ao longo do rio Madeira. Na ocasião, a população da redondeza da capital da capitania, Vila Bela da Santíssima Trindade era aproximada de 500 pessoas.

Preocupado com os desvios de ouro das minas do alto vale do Guaporé, Antônio Rolim de Moura Tavares, em 1758, solicita ao juiz de fora da capitania de Mato Grosso, Teotônio da Silva Gusmão, a fundação de uma feitoria na cachoeira do Salto Grande do Rio Madeira, que ficou sendo então denominada de Nossa Senhora da Boa Viagem do Salto Grande. Atualmente essa cachoeira é denominada de Teotônio.denominada de Nossa Senhora da Boa Viagem do Salto Grande. Atualmente essa cachoeira é denominada de Teotônio.

Embora fosse um mercado consumidor, o vale do Guaporé perdera sua maior fonte de riqueza, o ouro, que não mais era encontrado com facilidade. Isso causou o abandono progressivo da região, uma vez que as fronteiras já haviam sido demarcadas.

A decadência da região do vale Guaporé foi tamanha que a capital, entre 1820-1835, foi transferida para a cidade de Cuiabá. Com migração da população e o abandono da ex-capital, Vila Bela da Santíssima Trindade foi rebaixada até mesmo da condição de cidade por um pequeno período. Na mesma ocasião, o vale do Guaporé, nas proximidades dos atuais limites de Rondônia, principalmente nos afluentes do rio Cabixi, teve sua ocupação marcada pela presença de núcleos isolados de povoações de negros egressos da escravidão em Vila Bela da Santíssima Trindade.

Não devemos esquecer que a fundação da capitania de Mato Grosso em 1748 e da capital Vila Bela da Santíssima Trindade em 1752, às margens do rio Guaporé, assim como o incentivo ao povoamento no vale guaporeano tinha o objetivos de garantir a posse da terra à Coroa Portuguesa. Lembramos que, essa região fora rica em ouro nos meados do século XVIII.

Com a independência do Brasil em 1822, a denominação capitania de Mato Grosso foi substituída por província de Mato Grosso e com a proclamação da República do Brasil em 1889, a denominação passou a ser estado de Mato Grosso. Em 1943, foi criado o Território Federal do Guaporé, seu território foi formado com a maior parte da área desmembrada do estado de Mato Grosso e uma pequena parte do estado do Amazonas.

No Período Colonial, no Vale do Guaporé, a sociedade era escravocrata e mercantilista. O mercantilismo, uma política econômica dos países europeus, estava centrado no aumento do estoque de metais preciosos, no comércio exterior favorável ao país, dando maior importância ao comércio e à indústria do que à agricultura. Só que no caso do Brasil Colônia, o país era Portugal. A riqueza aqui produzida, pelo pacto colonial, tinha de encher os cofres da Metrópole portuguesa.

Predominava a população masculina, de brancos, mestiços, indígenas e negros, dividia-se em livres e escravos. A maioria absoluta dos habitantes eram mestiços e negros e, os brancos eram minoria. A posição social dos mestiços era determinada pela cor da pele que, quanto mais escura, mais baixo seu nível. Os últimos na escala eram os escravos negros.

A população branca constituía a reduzida elite, formada a partir de sertanistas e aventureiros, provenientes de outras regiões da Colônia, ocupava cargos públicos, eram comerciantes ou possuíam áreas de mineração e grande plantel de escravos. Mas poucos conseguiram fazer fortuna.

Sendo a minoria dos habitantes brancos os governantes aproveitaram brancos pobres, endividados ou culpados perante a justiça, provenientes de outras regiões da Colônia, e mestiços de pele mais clara, permitindo-lhes a reconquista de status social, pelo perdão das dívidas e resguardo das penalidades perante a justiça e como homens bons, podiam participar da vida pública guaporeana, ocupando cargos de baixos escalões.

 

 

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Apesar de toda a dominação portuguesa, ainda faltava a conquista dos direitos legais sobre a região. Foi nesse contexto que surgiu a figura do brasileiro Alexandre de Gusmão, que, usando de toda a diplomacia que lhe era própria, defende a conquista dos bandeirantes ao longo do vale do Guaporé, fazendo prevalecer no Tratado de Madri o “uti possidetis” em que a terra pertence a quem a ocupa, estabelecendo como limites territoriais as águas do rio.

Dom Antônio Rolim de Moura Tavares, governador da capitania de Mato Grosso, funda em 1759 o Forte de Nossa Senhora da Conceição, no sítio onde anteriormente havia existido a missão jesuítica espanhola de Santa Rosa, a Velha, na margem direita do rio Guaporé.

O Real Forte do Príncipe da Beira foi construído em local próximo e substituiu o antigo Forte de Bragança.

A obra da construção do Forte Príncipe teve início no dia 20 de junho de 1776, com o lançamento da pedra fundamental, e no dia 20 de agosto de 1783 ocorreu a inauguração. O engenheiro, Domingos Sambocetti (italiano), foi vítima de malária e morreu antes do término da obra, foi substituído pelo sargento-mor Ricardo Franco de Almeida Serra. A obra foi marcada pela falta de materiais, trabalhadores, fome e epidemia.

Para a construção do forte vieram trabalhadores de São Paulo, Belém, Mato Grosso. Na ocasião, pessoas de diversas partes do Brasil subiram os rios Madeira, Mamoré e Guaporé ou pela via cerrado mato-grossense desceram pelo rio Guaporé para trabalhar na construção do forte, originado a formação de novos núcleos de povoamento na região.

Real Forte do Príncipe da Beira, nome da fortaleza de fronteira, foi em homenagem a Dom José, neto de Dom João V, detentor do título Príncipe da Beira, herdeiro da linha de sucessão ao trono Português.

A função do forte se perdera no tempo, afinal, as fronteiras já estavam traçadas. Com o abandono progressivo do forte ocorreu, também, o abandono dos núcleos de povoamento que ali se instalaram. Por aproximadamente cem anos a região ficou abandonada. Hoje, resta-nos contemplar as ruínas.

 

 

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Charles Marie de La Condamine, naturalista francês, foi o responsável pelo reconhecimento europeu do látex (borracha) nos idos de 1736, e, a partir de então, deu margem ao início das pesquisas para seu aproveita-mento industrial.

A região amazônica, na segunda metade do século XIX, com a demanda do látex, tornou-se um pólo atrativo, principalmente para nordestinos que não tinham nenhuma perspectiva de vencer a seca que assolava o sertão entre 1877 e 1879. Dentro deste contexto, uma grande leva de retirantes nordestinos migra para a Amazônia em busca de trabalho na extração do látex.

O trabalho dos seringueiros era realizado através de um sistema de aviamento, e o regime de trabalho baseava-se no endividamento reiterado colocando o trabalhador nas mãos dos proprietários-comerciantes, isto é, os seringueiros compravam fiado no barracão (alimentos, ferramentas, munições e roupas) e no final do mês sempre a dívida era maior que o saldo.

A elevada extração e comercialização do látex na região da bacia do rio Madeira e seus afluentes, desperta no governo brasileiro o interesse, a necessidade da integração dessa região com as demais regiões do País. Para tanto, o presidente Afonso Pena nomeia, em 1907, uma comissão que foi comandada pelo engenheiro militar Cândido Mariano da Silva Rondon.

A alta rentabilidade do látex atraiu a atenção de contrabandistas estrangeiros. Portanto, em 1876, a Inglaterra já dispunha de duas mil e setecentas mudas de Hevea brasiliensis para remeterem às suas colônias no sudeste asiático e assim dar início a uma produção que arruinaria a economia Amazônia brasileira.

Nos primórdios do século XX, já em razão da elevada produção de látex no Oriente (Malásia), ocorre conseqüentemente a partir de 1912 a decadência da produção brasileira, gerada pela desvalorização da borracha no mercado internacional, encerra-se o Primeiro Ciclo da Borracha. A produção continuou, porém, em uma escala reduzidíssima.

O Primeiro Ciclo da Extração de Látex (borracha) acontece a partir de 1877 e entra em decadência na década de 1910. Já em 1912, quando foi inaugurada a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o preço do látex estava em declínio.

Ainda, no Primeiro Ciclo da Borracha os seringueiros penetram os afluentes do rio Madeira e ocorreu o início da formação de diversos povoados: no rio Jamari formaram os povoados de Samuel (extinto) e Papagaios, atual cidade de Ariquemes. Subindo o rio Machado, na primeira cachoeira, surge o povoado Dois de Novembro, hoje distrito de Machadinho do Oeste. Navegando pelo rio Machado, penetraram no rio Jaru, onde surgiu o povoado de mesmo nome. Pelo rio Machado ou Jiparaná, acima, na foz do rio Urupá, surge a vila Urupá, atual cidade de Ji-Paraná. Na junção do rio Comemoração ou Melgaço com o rio Apediá ou Pimenta Bueno, onde forma o rio Machado ou Jiparaná, surge o povoado de Pimenta Bueno.

 

 

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Estrada de Ferro Madeira-Mamoré

 

A Bolívia, após sua independência do Peru, ficou isolada, tendo que enfrentar a exploração do mesmo para escoar seus produtos até o Oceano Pacífico, o que tornava inviável qualquer comercialização. Portanto, o sonho de chegar ao Oceano Atlântico, via rio Madeira e Amazonas, era uma necessidade que deveria tornar-se realidade.

Para vencer o percurso encachoeirado dos rios Madeira e Mamoré foi idealizado a construção de uma ferrovia entre as localidades de Santo Antônio e Guajará-Mirim.

A princípio, acreditava-se que a construção da ferrovia teria início num prazo de dois anos e seu término seria no final de sete anos.

Uma empresa inglesa “Public Works Construcion Company” interessou pela construção da ferrovia e para tanto enviou ao Brasil dois de seus melhores engenheiros para estudarem os pontos negativos e positivos da construção. Os engenheiros fizeram um relatório dando o parecer positivo para a construção da ferrovia.

Os ingleses partiram rumo à Amazônia para construir a estrada de ferro. No dia 06 de julho de 1872 os primeiros trabalhadores chegaram a Santo Antônio, que nada mais era que um ponto de parada para os que se aventuravam a subir ou a descer o rio Madeira. Porém, naquele ano Santo Antônio transformava-se no ponto inicial da tão sonhada ferrovia.

Quatro empresas construtoras trabalharam em vão tentando construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A quarta empresa, após quatro meses e quinze dias em que se encontravam trabalhando, haviam conseguido concluir somente três quilômetros de ferrovia, quando a projeção era de dez quilômetros por mês, em média.

A primeira locomotiva, ao percorrer os primeiros três quilômetros da ferrovia, recebeu o nome de Church. Porém, em sua primeira viagem, descarrilou-se, pondo fim à euforia da pré-inauguração.

Em 19 de agosto de 1879, foi oficialmente suspensa a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Tantas vidas sacrificadas, tantos materiais deixados para virarem sucatas, tantos sonhos perdidos e somente sete quilômetros de estrada foram construídos.

Com o fracasso da P. & T. Collins, o governo brasileiro resolve cassar a concessão de Church, no entanto, ele sabia da necessidade boliviana de escoar seus produtos pelo território brasileiro, fato que poderia render grandes lucros para o Brasil. Por isso, não desistiu de construir a estrada de ferro e nomeou o engenheiro Carlos Alberto Morsing para chefiar uma comissão (Comissão Morsing) cujo objetivo era estudar o percurso da ferrovia entre as localidades de Santo Antônio e Guajará-Mirim.

No ano de 1883, a Comissão Morsing chega a Santo Antônio, fazendo uma análise do material sucateado deixado pela P. & T. Collins, que havia partido três anos antes. Logo que chegaram, já começaram a enfrentar problemas com as doenças típicas da região. Morsing, enfermo, deixa Santo Antônio rumo ao Rio de Janeiro com o objetivo de convencer as autoridades de que, diante das dificuldades existentes na região, era primordial maior investimento, pois os trabalhadores estavam sofrendo com as doenças, não sendo possível dar continuidade ao projeto.

O engenheiro Júlio Pinkas, que substituiu Morsing à frente da comissão, resolveu retirar-se de Santo Antônio, visto que todos os trabalhadores encontravam-se em estado deplorável após cinco meses isolados na região.

Em 1884, Morsing entrega um relatório da ferrovia para o ministro da Agricultura, o qual, por sua vez, convida Júlio Pinkas para fazer a análise. O engenheiro Júlio Pinkas mostra-se contrário às idéias apresentadas, o que o levou a fazer outro relatório contrapondo-se às idéias de Morsing. Mais uma vez, em meio a conflitos e protestos, a ferrovia entra para o esquecimento, bem como todos os trabalhadores que faleceram e foram largados, sem mesmo ter um enterro decente, ao longo dos trilhos.

 

 

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Estrada de Ferro Madeira-Mamoré

 

Seringueiros brasileiros subindo o rio Purus ocuparam o território boliviano. O território foi denominado de Acre. A ocupação gerou preocupações para os governos brasileiro e boliviano e teve diversas revoltas por parte dos seringueiros brasileiros que não aceitavam o território ocupado ser pertencente à Bolívia.

Em 17 de novembro de 1903, é assinado o Tratado de Petrópolis entre o Brasil e a Bolívia. A partir de então, houve a incorporação do espaço acreano ao território do Brasil, mediante indenização de dois milhões de libras esterlinas, e ainda caberia ao governo do Brasil a construção de uma ferrovia, as margens dos rios Madeira e Mamoré, para viabilizar o escoamento de produtos do Centro, Norte e Noroeste boliviano para o Oceano Atlântico.

A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré foi iniciada no ano de 1907, e a empresa construtora a May & Jekyll possuía uma larga experiência na construção de ferrovias.

Ao chegar a Santo Antônio os operários da construtora tinham como principal objetivo fazer um levantamento do material deixado pela empresa P. & T. Collins e das condições da região para a construção. Nesse levanta-mento ocorreu a mudança do ponto inicial da ferrovia, que antes era Santo Antônio para Porto Velho.

Percival Farqhuar, principal acionista e controlador do grupo May, Jekyll & Randolph, demonstrava grande interesse na construção da ferrovia. Portanto, mantinha contato com diversas partes do mundo, com o intuito de conseguir trabalhadores para a construção. Farqhuar estabeleceu um sistema de rodízio de operários, pois já tinha conhecimento da fragilidade dos trabalhadores em relação às condições inóspitas da região. Para manter o ritmo da construção, mês a mês chegava uma nova leva de trabalhadores que iria substituir os enfermos e os mortos. Diante das dificuldades de permanecer na região, a contratação de novos funcionários era conseguida mediante uma remuneração bastante elevada.

A saga da construção da ferrovia, que iniciou-se em 1872, teve o seu fim em 1º de agosto de 1912, ocasião da inauguração do último trecho.

Aproximadamente 21.817 operários, provenientes de diversas nacionalidades trabalharam na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Faleceram um total aproximado a 1.593 operários, sendo 631 brasileiros, 366 espanhóis, 208 antilhanos, 148 portugueses, 52 alemães, 29 italianos, 30 colombianos, 20 americanos e de diversas outras nacionalidades.

A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré foi de grande importância para o desenvolvimento do vale do Madeira. Nesta região, até 1907, existia somente um pequeno povoado denominado Santo Antônio do Rio Madeira, localizado na primeira cachoeira do rio Madeira, no sentido de quem sobe. Com a construção da ferrovia surgiu as cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim.

As doenças tropicais eram grandes incomodo para dirigentes e operários da construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Logo nos primeiros meses de trabalho, foram dizimadas centenas de operários, surgindo a necessidade urgente de construir um hospital para tratar de doenças adquiridas na região. O empresário Percival Farqhuar viu que o seu milionário negócio iria ao fracasso se não providenciasse a instalação de uma infra-estrutura médico-hospitalar.

Em 1910, o conceituado médico sanitarista Osvaldo Cruz acompanhado pelo colega doutor Belizário Pena chegam em Porto Velho, contratados pela construtora da ferrovia.

Nesse período, o Hospital da Candelária era constituído de quinze edificações, divididas em residências para médicos, enfermeiros e centro cirúrgico. Trabalhavam onze médicos, três deles posteriormente faleceram também de doenças tropicais. O médico sanitarista Osvaldo Cruz, em seu relatório, elogia, cita ser excelentes as instalações do Hospital da Candelária, construído em plena Selva Amazônica.

A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré originou a formação de duas cidade, Porto Velho e Guajará-Mirm.

 

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Com a recessão de 1929, ocasionada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, vai abaixo qualquer esperança de vencer a crise da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A partir de então, iniciou-se o enxugamento da folha de pagamento, bem como a paralisação da ferrovia, o que gerou protestos por parte dos trabalhadores e do governo.

Por causa das dificuldades, a empresa ferroviária Madeira-Mamoré Railway Company solicita a rescisão do contrato de arrendamento e no dia 10 de julho de 1931, o presidente Getúlio Vargas decretou intervenção na administração da empresa Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

  A Ferrovia Madeira-Mamoré foi desativada em 1972, foi substituída pela BR 364, (Porto Velho-Abunã) e BR 425 (Abunã-Guajará-Mirim).

Em 1980, foi realizado um seminário sobre a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré como objetivo ressaltar a importância da estrada de ferro para a região. Com o término do seminário, ocorreu a contratação da engenharia Antônia Teódulo Palitot para fazer um levantamento orçamentário para a recuperação da E.F.M.M.

Aqueles que presenciaram, sob revolta, a desativação da ferrovia em 1972, ficaram emocionados ao ver, em 5 de maio de 1981, a inauguração do trecho recuperado, entre Porto Velho e a cachoeira de Santo Antônio, uma extensão de 7 km da ferrovia.

Nos finais de semana, o trem maria fumaça realizava viagens entre a estação férrea de Porto Velho e a cachoeira de Santo Antônio. Era o mais atraente passeio turístico da região. Porém, em 2001, no período chuvoso, ocorreu o desmoronamento de um trecho da linha, ocasionando novamente a paralisação.

Em 2005, a Rede Globo de televisão apresentou uma minissérie intitulada Mad Maria, era um romance, baseado também em um livro de romance, porém, citava nomes de personagens da empresa Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

 

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Os dirigentes e operários da empresa May, Jekyll & Randolph, cons-trutora da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, estavam instalados numa região de epidemia constante. As doenças tropicais que mais incomodavam eram as febres amarela, malária, beribéri (doença provocada por avitaminose), ancilostomíase, pneumonia, sarampo, hemoglobinúria (citada pelos médicos norte-americanos de Black Water Fever) e impaludismo.

Logo nos primeiros meses de trabalho, foram dizimadas centenas de operários, surgindo a necessidade urgente de construir um hospital para tratar de doenças adquiridas na região. O empresário Percival Farqhuar viu que o seu milionário negócio iria ao fracasso se não providenciasse a instalação de uma infra-estrutura médico-hospitalar.

O Hospital da Candelária, construído em 1907, era um aglomerado de barracões de madeira com trezentos leitos, enfermaria e consultório. Dr. Shivers foi o primeiro médico da região, trabalhou durante quatro meses, no Hospital da Candelária e foi substituído pelo médico H. P. Belt. Em 1909, chega o Dr. Lovelace e assume a direção dos serviços médicos no povoado de Porto Velho.

Na ocasião, foi divulgado pela imprensa nacional e internacional referente às epidemias e mortes na região do Alto Madeira, nas obras de construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Portanto, dificultou a contratação de novos operários para substituir os enfermos e os mortos. Espanha, Portugal e Itália impediram a saída de cidadãos de seus países com destino à obra desta ferrovia.

Em 1910, o conceituado médico sanitarista Osvaldo Cruz acompanhado pelo colega doutor Belizário Pena chegam em Porto Velho, contratados pela construtora da ferrovia.

Nesse período, o Hospital da Candelária era constituído de quinze edificações, divididas em residências para médicos, enfermeiros e centro cirúrgico. Trabalhavam onze médicos, três deles posteriormente faleceram também de doenças tropicais.

O médico sanitarista Osvaldo Cruz, em seu relatório, elogia, cita ser excelentes as instalações do Hospital da Candelária, construído em plena Selva Amazônica.

O primeiro relatório médico da região foi elaborado, em 1907, pelo médico norte-americano Dr. H. P. Belt. Ele possuía larga experiência em doenças tropicais e, em seu relatório, cita que a região era uma das mais doentias do mundo.

 


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